A cirurgia de adequação do tórax — tecnicamente chamada de mastectomia masculinizante ou mamoplastia masculinizante — é um dos procedimentos cirúrgicos mais procurados e com maior impacto positivo na qualidade de vida de homens trans e pessoas não binárias designadas do sexo feminino ao nascer.
Diferente da mastectomia oncologia tradicional, o objetivo da cirurgia masculinizante é promover a remoção do tecido glandular mamário e do excesso de pele, reposicionando o complexo aréolo-papilar para criar um contorno torácico esteticamente alinhado ao gênero masculino, respeitando as estruturas anatômicas do paciente.
O procedimento é amparado pelas diretrizes do Conselho Federal de Medicina (CFM — Resolução nº 2.265/2019) e pela World Professional Association for Transgender Health (WPATH), exigindo um planejamento multidisciplinar que envolve cirurgia plástica/mastologia, endocrinologia e suporte em saúde mental.
1. O Papel do Acompanhamento Endocrinológico no Preparo Cirúrgico
Embora a cirurgia seja realizada por uma equipe cirúrgica habilitada, o endocrinologista desempenha um papel central no planejamento pré-operatório e na estabilização do paciente:
- Avaliação da Terapia Hormonal com Testosterona: O uso prévio de testosterona não é obrigatoriamente um pré-requisito cirúrgico absoluto em todas as diretrizes internacionais, mas quando o paciente realiza hormonioterapia masculinizante, o tratamento prévio auxilia na redução da gordura mamária e no aumento do peitoral, favorecendo a definição anatômica no ato cirúrgico.
- Manejo do Risco Tromboembólico e Hematócrito: A testosterona estimula a eritropoiese (produção de glóbulos vermelhos). O monitoramento endocrinológico previne complicações como a eritrocitose (elevação excessiva do hematócrito), garantindo parâmetros sanguíneos seguros para a anestesia e a cicatrização.
- Ajuste de Doses no Período Perioperatório: A equipe endocrinológica orienta o protocolo de manutenção ou pausa temporária da medicação hormonal no período pré e pós-cirúrgico imediato para otimizar a recuperação hemostática.
2. Critérios Médicos e Regulatórios (CFM)
No Brasil, a Resolução CFM nº 2.265/2019 regulamenta os critérios éticos e legais para a realização da mastectomia masculinizante:
- Idade Mínima: A realização do procedimento cirúrgico de afirmação de gênero é permitida a partir dos 18 anos de idade;
- Acompanhamento Multidisciplinar: Exige-se parecer da equipe multiprofissional comprovando a capacidade de tomada de decisão esclarecida e a consistência da identidade de gênero;
- Consentimento Livre e Esclarecido: O paciente deve compreender detalhadamente os riscos cirúrgicos, os tipos de cicatriz e os cuidados de recuperação.
3. Técnicas Cirúrgicas e Tipos de Incisão
A escolha da técnica cirúrgica depende do volume mamário inicial, do grau de elasticidade da pele e da posição da aréola. A avaliação conjunta entre cirurgião e paciente definirá a abordagem mais indicada:
- Periareolar ou Transareolar: Indicada para tórax com pequeno volume mamário e boa elasticidade da pele. A incisão é feita ao redor da aréola, resultando em cicatrizes bastante discretas.
- Incisão Dupla com Enxerto de Aréola: Indicada para volumes mamários médios a grandes ou com flacidez de pele. São feitas incisões horizontais na prega inframamária para remoção do tecido e da pele sobressalente, com o reposicionamento do complexo aréolo-papilar. É a técnica mais comum e previsível para grandes volumes.
O preparo hormonal e o acompanhamento metabólico pré e pós-operatório garantem mais segurança e tranquilidade em todas as etapas da afirmação de gênero.
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A recuperação exige disciplina e adesão estrita às orientações médicas para evitar complicações como hematomas, seromas ou sofrimento do enxerto areolar:
- Uso de Colete Compressivo Torácico: Auxilia na adesão da pele ao tórax, reduz o edema e diminui o risco de acúmulo de fluidos nas primeiras semanas.
- Repouso dos Membros Superiores: Limitação de elevação dos braços acima dos ombros e restrição a esforço físico e carga pesada.
- Rastreamento Preventivo Residual: É importante destacar que a mamoplastia masculinizante reduz drasticamente a quantidade de tecido mamário, mas pode manter uma quantidade microscópica residual. A rotina de acompanhamento de saúde geral continua sendo orientada individualmente pelo médico.
Conclusão
A mastectomia masculinizante é uma etapa transformadora que proporciona alívio da disforia e reafirmação da identidade. Conduzida por equipes médicas qualificadas e com rigoroso planejamento pré e pós-operatório, a cirurgia é realizada de forma ética, segura e fundamentada nas melhores evidências científicas.